Humanidades

Pesquisa cria índice inédito para medir impacto do endividamento das famílias
Estudo desenvolveu o Índice de Desconforto de Crédito (IDC), que reúne indicadores de inadimplência, comprometimento da renda e qualidade do crédito para avaliar os efeitos do superendividamento no bem-estar financeiro da população
Por FGV - 02/08/2026


Imagem gerada por IA


O aumento da oferta de crédito no Brasil tem ampliado o acesso das famílias a diferentes modalidades de financiamento, mas também intensificado o superendividamento. Para compreender melhor esse cenário, pesquisadores da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP) desenvolveram o Índice de Desconforto de Crédito (IDC), um novo indicador que mede o impacto do endividamento sobre a vida financeira das famílias brasileiras. 

O estudo foi desenvolvido por Lauro Gonzalez, Rafael Schiozer e Matheus Carrijo, pesquisadores do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira (FGVcemif), da FGV EAESP. A pesquisa utiliza dados públicos do Banco Central e combina três dimensões do mercado de crédito: inadimplência, comprometimento da renda e qualidade das modalidades de crédito contratadas. 

Com base em séries históricas do Sistema Financeiro Nacional desde 2014, o IDC busca avaliar não apenas o volume das dívidas, mas também a pressão financeira exercida pelo tipo de crédito utilizado pelas famílias. Segundo os pesquisadores, a expansão recente do crédito ocorreu principalmente em linhas voltadas ao consumo, como cartão de crédito rotativo, crédito pessoal e consignado, modalidades que costumam apresentar juros mais elevados. 

Os dados analisados mostram que, a cada R$ 100 de renda familiar, aproximadamente R$ 29,30 são destinados ao pagamento de dívidas e juros. O levantamento também aponta que cerca de 80 milhões de brasileiros estavam com o CPF negativado em março de 2026. 

O índice registrou 0,94 em janeiro de 2026, o maior valor da série histórica, indicando que o desconforto financeiro das famílias atingiu 94% do nível máximo previsto pela metodologia desenvolvida pelos pesquisadores. Para o estudo, considerar a qualidade do crédito contratado é um diferencial importante, já que modalidades mais caras aumentam o risco de superendividamento e comprometem o bem-estar financeiro. 

Os pesquisadores destacam ainda que programas de renegociação de dívidas podem gerar alívio temporário, mas não solucionam questões estruturais do mercado de crédito. Entre as medidas apontadas estão o fortalecimento da supervisão sobre modalidades sem garantia, a adoção de limites para operações de maior risco e mudanças regulatórias que incentivem um acesso ao crédito mais sustentável. 

 

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